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Os 64 caminhos

Luis Fernando Verissimo

Ideia para uma história. O título poderia ser O escolhido ou Os 64 caminhos. Ou, talvez, Faltou alguém em Samarband. Um encanador vai atender a um chamado. É no apartamento de um velho que o recebe vestindo um robe tão desalinhavado quanto ele e pede, com um sotaque carregado, para o encanador dar uma olhada na pia do banheiro, que parece estar entupida. Pelo seu aspecto, e pelo aspecto do apartamento, o encanador deduz que o velho mora sozinho e raramente sai da sua toca malcheirosa. Enquanto conserta a pia, o encanador ouve tocar o interfone e depois ouve a voz do velho discutindo com alguém. Não consegue entender o que o velho está dizendo. É uma língua estrangeira. Depois, silêncio. Depois o velho entra no banheiro, muito agitado, carregando algo envolto num pano seboso que parece ser um cilindro. Entrega o volume ao encanador e diz:

- Por favor, leve isto. Saia pela porta de serviço. Rápido!

- Mas... O que é isto?

- São os caminhos. Importantíssimo. Centenas de vidas dependem deles.

- E o que eu faço com...

- Turquia. Istambul. Rua Caban, 117. Procure Malhamad. Entendeu?

Malhamad. Importantíssimo.

O encanador, atordoado, recolhe suas ferramentas. Tenta protestar.

- Mas eu não posso. Eu...

O velho o interrompe. Começa a empurrá-lo na direção da porta da cozinha.

- Você nunca ouviu falar nos 64 Caminhos?

- Nos quê?

Ouve-se a campainha da porta da frente. O encanador já está quase descendo pela escada. Da porta da cozinha, o velho continua.

- Os 64 caminhos. Sessenta e quatro. Oito vezes oito. A mãe do Buda era de uma família com 64 tipos de virtude. Sessenta e quatro gerações separavam Confúcio do começo da dinastia Hoang Ti. Jesus Cristo era o 64º na linha de descendentes diretos de Adão, segundo São Lucas. Sessenta e quatro mulas puxaram a carruagem fúnebre de Alexandre Magno, e 64 pessoas carregavam os restos mortais dos imperadores da China. E são 64 as casas num tabuleiro de xadrez. Não esqueça. Istambul. Rua Caban, 117. Malhamad. Malhamad! Diga que eu não vou poder ir, mas ele não pode perder o encontro. Importantíssimo!

- Eu não posso. Eu não tenho como...

- Você foi o escolhido, você não entende? Eles vieram me matar e levar a lista dos caminhos. Deus quis que você estivesse aqui para salvá-la.

- Mas por que você também não foge pela escada?

O velho apenas sorri e não diz nada. Fechou a porta de serviço e foi abrir a porta da frente.


Uma semana depois, o encanador viu nos jornais. Corpo de velho solitário de origem desconhecida encontrado num apartamento. Cheiro insuportável atraíra vizinhos. Velho fora apunhalado 64 vezes. Três semanas depois o encanador viu na televisão: mais de cem pessoas de uma misteriosa seita chacinadas num lugar chamado Samarband enquanto esperavam a chegada de alguém com uma mensagem que nunca aparecera. A mensagem, segundo fora possível apurar, incluiria os 64 caminhos para salvar a humanidade que tinham sido ditados para aquele alguém durante um transe. Naquela noite, na cama, o encanador, que não contara nem para a mulher sobre o pacote do velho, ficou pensando: o meu caminho eu sei qual é. É este. Sou um encanador, faço meu trabalho e não me meto na vida de ninguém. Naquele dia chegara na calçada e atirara o pacote seboso na primeira lata de lixo que encontrara. Ia se meter naquela história? Tirar dinheiro de onde para ir a Istambul, com o que ganhava? E completou em voz alta, antes de seguir seu caminho:

- Eu, hein?


Domingo, 24 de setembro de 2006.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.